terça-feira, 5 de agosto de 2014

AQUELA RAPARIGA MAGRA



Ninguém diria que naquele corpo frágil no aspeto, se escondia uma força gigante, uma alma de aço, um coração de diamante! Olhava-se para ela e tinha-se a sensação de debilidade, até de fraqueza física que até o mais experiente enganava.
Era magra- verdadeiramente magra- e impressionava quem a encontrasse na rua, mesmo que de passagem, num rápido olhar, sem que isso significasse menos respeito; talvez uma reação de estranheza , um certo sentimento de pena por alguém com aquela aparência de debilidade
Andava com ligeireza, mas sempre algo triste, olhos no chão, segurando a pasta onde guardava os livros e outros apetrechos escolares, e não comunicava, parecendo nada ao seu redor lhe interessar.
Nunca a vi parar numa montra, nem cumprimentar quem quer que fosse, como se caminhasse num deserto inóspito, apressadamente a caminho do seu destino:- a Escola.
Eu não a conhecia, embora o meio fosse pequeno, nem sabendo, também, se tinha vindo estudar para ali, sendo de outra terra, o que também era natural.
Digo-vos que era bonita, feições corretíssimas, alta, e usava ainda as célebres trancinhas que balouçavam ao sabor do andar rápido que atento lhe observava quando a caminho da mesma escola que eu frequentava.
Ora, num certo dia, comecei a segui-la mais de perto e a procurar encorajar-me, de modo a dirigir-lhe a palavra. Causava-me impressão aquela figurinha de jovem que não via comunicar com ninguém. Aguçava-me a curiosidade e estava mesmo decidido a falar-lhe.
A pretexto da chuva que caía intensamente numa manhã de novembro (batida por vento forte, naturalmente desagradável) aproximei-me mais e ofereci-lhe proteção sob o meu guarda-chuva, já que ela o não levava.
Eu ia, sinceramente receoso, mas, mesmo assim, lá ataquei!
- Ah! Obrigada!- disse ela.
- Isto é que ela bate forte!... (acrescentei tremente)
Eu era mesmo muito tímido, confesso.
Pouco falámos até chegarmos à Escola- que aliás ficava perto- despedimo-nos e ela agradeceu.
Soube, no entanto, que ela frequentava o 3.º ano, enquanto eu já andava no 4.º.
Foi uma vitória para mim- creiam- o ter-lhe falado.
O problema mantinha-se. No entanto, já tinha dado um passo de gigante ao dirigir-lhe a palavra, prestando-lhe inclusive, um bom serviço, protegendo-a da chuva.
Qual foi a minha ideia, desde logo? Esperar vê-la sair e voltar a “dar-lhe boleia” se a sorte me protegesse, estando a chover de novo, o que viria mesmo a calhar...
Não contei a ninguém, mas passei (sempre que tinha um intervalo) a vigiar a porta da Escola na esperança de lhe poder ser útil de novo. Pudera!...
Houve um desencontro! Éramos de anos diferentes e os horários não coincidiam!
- Fica para amanhã!- disse para comigo mesmo.
A verdade é que estava entusiasmado com ela, talvez mesmo apaixonado.
No dia seguinte- sábado- havia apenas as atividades da Mocidade Portuguesa e eu nem sabia bem como haveria de encontrá-la, dada a diversidade das práticas desportivas e de recreio de cada um dos géneros, decorrendo, até, em locais diferenciados como mandava a lei.
Passei o fim- de- semana a magicar em mil e um processos de a encontrar, mas com algo mais de convicção, já que tinha um pretexto para lhe dirigir a palavra, depois da ”boleia” da sexta-feira anterior.
 Chegou a 2.ª feira e lá estava eu no Rossio da cidade, local por onde ela entrava na rua de acesso à Escola.
Vi-a aparecer! O dia estava bom e o pretexto da chuva não fazia sentido, tendo só que o referir relativamente à anterior sexta-feira, para começo de conversa que, na realidade, me parecia o mais fácil.
Um pouco a medo lá me coloquei ao lado dela, cumprimentando-a.
Falámos da manhã chuvosa de 6.ª feira e ela lá se foi dando para a conversa, sem se esquecer de me agradecer uma vez mais.
Até à Escola, consegui que ela sorrisse e me respondesse a algumas perguntas por minha parte cautelosas…
Acabou o trajeto e despedimo-nos. Cada qual foi para a sua aula- como era norma ao tempo- e eu cada vez mais contente, ainda que algo inseguro.
Por sorte (vê-la já era sorte) deu-se o caso de a ver sair da parte da manhã, mas eu- como sempre- receoso, não fui ter com ela! Vejam bem o meu acanhamento!!!
Agora a culpa estava toda do meu lado! Invetivei-me revoltado por esta atitude medricas, e esperei pela tarde. Então…então é que era! Havia de lhe dirigir a palavra, custasse o que custasse!
Mas, qual quê! Desta vez ia acompanhada, ao que supus com uma pessoa de família, que já a esperava à saída da Escola. Mais um contratempo!
Seria na manhã seguinte, tinha que ser!
Estava com mais sorte com as manhãs…
(Entretanto, fiquei a saber por uma minha prima, que ela era das melhores alunas- se não a melhor- e maior era agora a minha responsabilidade!)
Maior responsabilidade depois de saber ainda de mais algumas das suas boas qualidades  como ajudar nas tarefas domésticas, estando a fazer, desde muito nova, o seu próprio enxoval.
NOTA:
- Aquela rapariguinha magra, para além dessas excelsas qualidades, estudava música em casa de uma professora de piano, o que naquele tempo era moda e acrescentava valor.

Dias depois, andando a encher-me de coragem, preparei uma cartinha com cuidado redobrado, com um palavreado rebuscado, mais ou menos semelhante ao que se podia ver em livros onde "se ensinava como pedir namoro"; havendo nas lojas, também à venda, cartas próprias muito bem decoradas para nelas escrevermos"barbaridades"- palavras caras de que mal sabíamos o significado- com as quais pretendíamos seduzir as moçoilas.
Acabada a cartinha, entreguei-a à referida prima e fiquei a aguardar nervosa e impacientemente pela desejada resposta, que chegou favorável, mas só depois de consultar a mãe, como mais tarde vim a saber.
Era assim a praxe! Até os que mal sabiam escrever tinham que pedir namoro por carta (encarregando um amigo de a redigir) o que representava maior compromisso do que simplesmente 'pedir por boca', como soe dizer-se.
Namorámos durante quase três anos! Ela não parecia a mesma rapariga tímida e introvertida que eu descobrira um dia na cidade. Foi um tempo bom de nossas vidas que enquanto durou foi o melhor até àquela altura.
 Depois, surgiu o serviço militar durante dois anos- longe dali e dividido por Lisboa, Évora e Coimbra- o que complicou a minha boa relação com aquela rapariguinha magra e… quase tudo se esfumou!
O Destino?! O acaso?!
Aconteceu, como, aliás, terá acontecido em tantos e tantos casos!
Pode-se dizer que é a vida com as suas incidências e as suas consequências.
 Mas… a relação com aquela rapariguinha magra… nunca será esquecida!

 Quinta da Piedade, 5 de agosto de 2014.
JGRBranquinho
José Branquinho 16:55Sem comentários:  Enviar a mensagem por e-mailDê a sua opinião!Partilhar no TwitterPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest

2 comentários:

  1. Gostei muito avô, interessante as voltas que a vida vai dando.

    Ass: João

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    1. Fiquei muito satisfeito por teres lido e feito o teu comentário de amizade.Quando escrevemos, gostamos que os outros leiam e nos comentem. O teu gesto agradou-me, naturalmente.
      Quando tiveres um pouco de tempo e pachorra... agradeço.
      Um abraço.
      O avô.

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